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A AMBIGÜIDADE E O ENSINO

 

Cristina de Castro Abreu e Silva

(Universidade Federal de Santa Catarina)

 

Resumo: O presente trabalho enfatiza como podem ser desenvolvidas questões relativas à ambigüidade das línguas naturais no ensino de língua materna. Pretende mostrar também que omitir a ambigüidade das discussões de sala de aula pode ser prejudicial aos alunos já que esta é inerente às línguas.

Palavra-chave: Ambigüidade; ensino; línguas naturais.

 

1. Introdução

 

Umas das características das línguas naturais é a sua capacidade de indeterminação ou o fato de estarem suscetíveis a diversas interpretações. Isso ocorre devido a fatores semânticos como: ambigüidade, polissemia, vagueza, metáfora e outros.

Mesmo a linguagem construindo as mais variadas ambigüidades, os ouvintes ou leitores, nem sempre, têm consciência da ambigüidade de algumas orações e não apresentam grandes dificuldades em interpretá-las.

O presente trabalho pretende enfatizar o que é ambigüidade, os itens relacionados a esse fenômeno e como a ambigüidade pode ser trabalhada em uma turma de 6ª série do Ensino Fundamental, de uma escola particular da cidade de Joaçaba-SC. A escolha desse tema se justifica pelo fato de que é possível verificar que a ambigüidade presente nos enunciados, os fatores capazes de gerá-la e suas implicações na leitura, escrita ou fala são pouco exploradas no ensino, principalmente nas aulas de Língua Materna. Conseqüentemente, podemos supor que os educandos, no ambiente escolar, não têm muita oportunidade de reconhecer ou mesmo de tomar conhecimento da existência de um fenômeno tão comum às línguas naturais como o da ambigüidade.

Portanto, como consideramos que a ambigüidade está constantemente presente nos enunciados de qualquer língua , julgamos importante que os professores, pelo menos os de língua materna, abordem essa questão em suas aulas, na tentativa de ampliar os conhecimentos lingüísticos de seus educandos ou de proporcionar-lhes situações em que estes possam tomar consciência de alguns fenômenos próprios das línguas naturais.

 

2. Fundamentação teórica

 

2.1. A ambigüidade conforme alguns lingüistas

 

Segundo Borba (1991), um falante qualquer pode produzir enunciados regulares quando combina adequadamente traços semânticos compatíveis ou itens lexicais. Porém, há seqüências passíveis de mais de uma interpretação semântica, como é o caso das sentenças ambíguas. A ambigüidade pode resultar do emprego de certas palavras de sentido duplo ou até triplo como também da própria construção da oração. Tanto a ambigüidade lexical como a construcional só existem para o ouvinte, pois o falante, na maioria das vezes, demonstra saber qual é a significação que está usando. Atribuir um valor ou outro depende muito do contexto e da situação.

Vejamos os exemplos propostos por Borba:

 (1 a) O juiz encontrou a filha chupando pirulito.

(1 b) Trago o remédio para seu pai que está neste vidrinho. 

Em (1 a), por hábito social, podemos supor que a interpretação mais provável é a filha estar com o pirulito como em (1 b), pelo conhecimento de mundo, sabemos que é o remédio que está no vidro e não o pai.

Para Oliveira (Pré-publicado), a ambigüidade pode ser vista como o inverso da sinonímia, pois nesta duas cadeias sonoras transmitem o mesmo significado, enquanto naquela, uma mesma cadeia sonora veicula dois sentidos diferentes.

Observemos o exemplo sugerido por essa autora:

 (2) João cortou a manga. 

Em (2), temos duas interpretações possíveis porque para a cadeia sonora [mãga] é possível atribuir dois significados diferentes: cortar uma fruta ou uma parte de uma blusa. Notamos que (2) possui duas formas semânticas distintas e que as condições de verdade para cada uma delas não são iguais.

A ambigüidade em (2) ocorre devido à homonímia do termo ‘manga’ e precisamos de mais informações para que possamos eliminar o duplo sentido.

Ilari (1997) nos lembra da etimologia do termo ambigüidade. Este provém de duas “palavras latinas ‘ambo’ e ‘agere’, figurando situação em que algo nos impele simultaneamente para duas direções distintas entre as quais precisa haver solução de continuidade” (Op. Cit., p.56).

Ele vê a ambigüidade como um fenômeno de presença constante nas línguas naturais e este é causado por uma diversidade de fatores como a homonímia lexical, a possibilidade de atribuir às sentenças duas construções sintáticas diferentes, a questão do escopo e as diversas correferências possíveis causadas por anafóricos.

Ilari salienta o caráter ambíguo encontrado freqüentemente nas manchetes jornalísticas e seus subtítulos. Pelo fato dessa ocorrência ser muito comum, ele a vê como uma estratégia usada pelos jornalistas na tentativa de atrair a atenção de alguns leitores, como se a ambigüidade pudesse aumentar a curiosidade das pessoas. Devido à duplicidade de sentido de inúmeros títulos de artigos de jornal, somente através de uma leitura completa da reportagem é que se consegue resolver a ambigüidade presente.

Ao lidarmos com a ambigüidade, é importante distinguir os sentidos que as palavras adquirem quando usadas de forma figurada, como na metáfora, hipérbole e outros. Oliveira acrescenta também a distinção entre a ambigüidade e a polissemia, pois nesta há uma relação de sentido entre os termos.

Vejamos o exemplo oferecido por ela:

 (3) Carlos vendeu um livro. 

Em (3), podemos atribuir duas interpretações para a palavra ‘livro’: um objeto físico ou os direitos autorais do livro (algo não físico). Como aqui podemos verificar uma relação de sentido nos usos de ‘livro’, temos , então, polissemia.

Vários estudiosos afirmam que essa distinção é uma tarefa difícil para o lingüista que deve analisar diversos critérios para verificar se se trata de um mesmo item lexical ou não.  Para Lyons (1987), muitos dos dicionários-padrão respeitam a distinção entre homonímia e polissemia, mas há dúvidas em estabelecer uma fronteira entre elas. Um dos critérios seria o etimológico, porém este é irrelevante para a lingüística sincrônica. Por outro lado, nem sempre se leva em conta a origem da palavra. É importante considerar a relação de significados como básica para caracterizar a polissemia e diferenciá-la da homonímia. Conseqüentemente, assim, pode ser também estabelecida uma diferença entre polissemia e ambigüidade decorrente de casos de homonímia:

Embora os lexicográficos possam sustentar que (o critério etimológico) seja uma condição suficiente para a homonímia, a diferença de origem nunca foi considerada necessária, ou sequer a mais importante das condições diferenciadoras entre homonímia e polissemia. A principal consideração é haver relação entre significados. Os vários significados de um lexema polissêmico único(...) são normalmente tidos por relacionados entre si: se tal condição não fosse satisfeita, o lexicográfico falaria em homonímia e não em polissemia, colocando várias entradas lexicais diferentes no dicionário.(op.cit., p.142-143)

Lyons chega até a nos dizer que alguns tratamentos modernos da semântica já propuseram a eliminação dessas discussões para que se considere casos de homonímia e não de polissemia, porém esta atitude não foi aceita. Talvez os critérios sintáticos e morfológicos sejam mais eficientes que os semânticos.

 

2.2. Ambigüidade X vagueza

 

Segundo Kempson (1980), uma sentença é ambígua se pode ser simultaneamente verdadeira e falsa, em relação ao mesmo estado de coisas.

Para ela, é errôneo pensarmos que discutir sobre a ambigüidade das línguas não seja necessário, pelo fato da ambigüidade não ser um fenômeno tão bem delineado como aparenta ser.

Sabemos que as palavras e as sentenças podem ter mais de um significado, mas nem sempre é claro detectar se em uma determinada oração ou sintagma ocorre ambigüidade ou outra espécie semelhante de fenômeno lingüístico. Na frase abaixo, é possível percebermos a existência de duplo sentido: 

(4) Ele viu seu amigo enquanto descia o morro. 

Podemos questionar: quem descia o morro? O amigo ou a pessoa que viu o tal amigo? A partir desses questionamentos, explicitamos a ambigüidade em (4).

Porém, há casos em que esse fenômeno gera incertezas sobre sua existência; daí a importância de analisá-lo cuidadosamente. Para isso, torna-se preciso diferenciar ambigüidade de vagueza já que ambas situam-se no mesmo campo semântico: o do “indeterminado” e do “não-especificado”.

De acordo com Moura (1999), a vagueza ocorre quando não podemos determinar se uma certa frase se aplica ou não a objetos específicos e esta gera proposições indefinidas quanto ao valor de verdade. Vejamos a sentença abaixo: 

(5) Mauro é bom pai.

A oração (5) pode ser verdadeira ou falsa conforme a definição de ‘bom’. O que é ser bom pai? É acompanhar o desenvolvimento dos filhos, é proporcionar a eles casa, escola particular, estudo de língua estrangeira no exterior? Não temos uma delimitação precisa do significado de ‘bom’.

Na visão de Moura, Fuchs cita três diferenças principais entre a ambigüidade e a vagueza, dois fenômenos tão entrelaçados:

a) a ambigüidade é um acidente decorrente de uma evolução lingüística. A vagueza é intrínseca à linguagem, em função das condições de percepção e conceptualização;

b) a ambigüidade envolve apenas um certo número de palavras, ao passo que a vagueza envolve todas as expressões;

c) a ambigüidade pode ser eliminada por um processo finito de desambigüização, ao passo que a vagueza é mais difícil de ser eliminada.

Para essa terceira diferença, observemos os dois exemplos abaixo propostos por Moura:

(6) Houve uma violação na sala dos professores.

(7) Nesta festa só entram adultos. 

Conforme as diferenças sugeridas para distinguirmos ambigüidade de vagueza, a primeira frase é ambígua e a segunda, vaga. Na primeira, temos ambigüidade porque podemos atribuir um sentido duplo ao termo ‘violar’. Esse pode se referir à violação, por exemplo, de uma professora que estivesse em tal sala ou pode fazer menção à violação de certos documentos que se encontravam no local mencionado.

Nessa oração, seria possível uma desambigüização se acrescentarmos a esse enunciado a frase “Todos os alunos tiveram acesso prévio às questões dos exames sem permissão dos docentes”. Assim, a ambigüidade é eliminada e excluímos a interpretação da violação da professora.

Na oração (7), não sabemos o que pode ser considerado um adulto. Gabriela, por exemplo, de dezoito anos, é ou não é uma pessoa adulta? O que é ser adulto? Aqui temos vagueza, pois há uma série de parâmetros que nos permitem especificar o sentido do termo ‘adulto’.

É possível notar que a forma de eliminar as indeterminações presentes tanto em (6) como em (7) são diferentes, tratando-se, então, de fenômenos semânticos distintos.

Segundo Ilari, o que caracteriza as expressões vagas não é o fato de comportarem mais de um sentido, mas o fato de terem um sentido em princípio único, que é insuficientemente determinado. Para exemplificar melhor a polêmica da vagueza, esse teórico retoma de Quine a problemática em estabelecer a diferença entre um morro e uma montanha. Na visão de Ilari, Quine diz que os geógrafos formularam critérios estatísticos para estabelecer o início de uma montanha. Porém, tais critérios não são da competência lingüística dos falantes; são convenções que determinam as condições de classificação de elevações do relevo para um tratamento técnico o qual requer um vocabulário mais preciso, pois a ciência busca a redução da vagueza das línguas naturais.

 

2.3. Tipos de Ambigüidade

 

As línguas naturais possuem diversos tipos de ambigüidade que serão especificados em seguida: 

 Ambigüidade Sintática: 

 (8) Carla ganhou um livro de Minas Gerais.

Nesse caso, Carla pode ter ganhado um livro que foi comprado em Minas Gerais ou ter ganhado um livro que mostra o estado de Minas Gerais. Podemos atribuir duas análises sintáticas distintas, tanto em termos de gramática tradicional (‘de Minas Gerais’: adjunto adnominal de ‘livro’ ou adjunto adverbial de ‘ganhou’) como em termos lingüísticos.

 Esse tipo de ambigüidade é decorrente da ordem dos elementos na sentença.

  Ambigüidade de Escopo Semântico:

 (9) Todos os meninos viram dois filmes.

Essa sentença possibilita duas interpretações diferentes devido à relação que os quantificadores ‘todos’ e ‘dois’ podem estabelecer. Para Oliveira, nesse tipo de ambigüidade, os quantificadores produzem uma interpretação distributiva (‘todos’ tem escopo sobre ‘dois’) ou uma interpretação não-distributiva (‘dois’ tem escopo sobre ‘todos’): “Eles viram dois filmes diferentes” ou “Eles viram os mesmos dois filmes”. A ambigüidade de escopo também pode ser vista como uma ambigüidade semântica. Entendemos por escopo os elementos aos quais um operador se aplica.

Conforme Ilari, o termo ‘escopo’ vem do inglês ‘scope’ e envolve a idéia do alcance de uma ação ou de uma operação dos sentidos, como por exemplo, as palavras ‘não’, ‘todos’ e ‘só’ expressam operações semânticas de negação, generalização e exclusão que afetam apenas algumas partes da oração ou a oração inteira. Para que possamos interpretar corretamente essas palavras, precisamos perceber a que conteúdos da frase elas se referem.

  Ambigüidade Anafórica:

(10) O irmão de Cristiano pegou a blusa dele.

Vemos novamente mais de uma forma possível de análise para essa sentença, devido ao anafórico ‘dele’, ou seja, de quem é a blusa: do Cristiano ou do irmão de Cristiano?

Esse tipo de ambigüidade ocorre por causa da relação que é possível estabelecer entre um anafórico com dois ou mais antecedentes diferentes.

Ambigüidade Lexical:

(11) Roberto Marinho comprou a Manchete. 

Outra vez podemos observar a presença da ambigüidade. É possível fazermos duas leituras da mesma sentença: ”Roberto Marinho comprou a revista Manchete” ou “ Roberto Marinho comprou a rede Manchete”.

  Aqui temos também o clássico exemplo das palavras ‘manga’ (fruta ou manga de camisa) e ‘banco’ (lugar para se deixar o dinheiro ou lugar para se sentar).

Ambigüidade Pragmática:

A ambigüidade, nesse caso, não se relaciona à forma lógica da oração, mas ao uso que podemos fazer dela.

(12) O seu pai se encontra? 

Essa pergunta pode ser vista como um pedido de ação ou de informação.

 Segundo Moura, a interpretação de sentenças ambíguas liga-se mais especificamente à interpretação que damos às palavras do autor do que ao conhecimento que possuímos dos fatos relatados.

É importante notarmos que mesmo certas sentenças sendo indeterminadas, elas podem ser interpretadas devido ao auxílio do contexto, porque é possível recorrermos às inferências pragmáticas _ contexto, intenção do falante, princípio da cooperação griceano, crenças do interlocutor naquele momento do discurso, como uma tentativa de eliminarmos a ambigüidade. A ambigüidade pode ser resolvida pelo próprio falante, caso ele a reconheça, ou com a dinâmica do discurso já que este se altera na medida em que a conversação avança, isto é, o contexto conversacional é dinâmico. Há casos também em que o falante não quer que a ambigüidade se resolva, como por exemplo, nas propagandas.

 

3. Amostragem

 

 Pelo fato de termos previsto que a ambigüidade não foi trabalhada na 5ª série no decorrer do ano letivo de 1999, escolhemos, portanto, a 6ª série A do Colégio Marista Frei Rogério, em Joaçaba – SC, para ser pesquisada sobre questões relativas à ambigüidade. Quase todos os componentes dessa turma concluíram a 5ª série na escola já mencionada.

Os alunos desse colégio pertencem a uma classe social e cultural privilegiadas.

Aplicamos um questionário à classe que possui trinta e três alunos para termos informações mais concretas a respeito da clientela a ser observada.

A faixa etária dos alunos varia entre onze a treze anos. Porém a maior parte possui doze anos, como podemos observar abaixo:

 

Faixa EtáRia

Quando questionados sobre o que era ambigüidade, obtivemos o resultado já esperado: a maioria a desconhecia ou não tinha ainda refletido sobre ela. (veja gráfico 2)

Gráfico 2

 

 

É importante ressaltar que nem todos os alunos que assinalaram o item ‘sim’ para confirmar que conheciam o que era ambigüidade conseguiram definir corretamente esse termo quando solicitados. Dos alunos que responderam que não sabiam o que era ambigüidade (79%), a maior parte afirmou que “não tenho nem idéia”. Quando foi pedido para sugerir o que poderia ser ambigüidade, apenas poucos tentaram alguma definição e coletamos sugestões como: “pode ser diferença”, “algo sem sentido”, “algo da antigüidade”, “uma afirmação ou ação”, “uma mentira”. (veja gráfico abaixo)

Fizemos à classe algumas perguntas relativas à informática que se justificam pois, os alunos, para essa pesquisa, desenvolverão uma atividade através do computador. Verificamos que os educandos já possuem um domínio básico dos softwares produzidos para o windows e constatamos que os mesmos apresentam condições suficientes para desenvolver atividades no laboratório de informática do colégio: gosto em realizar tarefas no computador e domínio necessário da máquina. Vejamos abaixo:

 

4. Metodologia

 

Como o objetivo geral deste trabalho é verificar como se processa o ensino de questões relativas à ambigüidade na 6ª série do Ensino Médio, aplicamos um questionário para verificarmos os conhecimentos dos alunos a respeito desse item, conforme nos evidencia os dados da Amostragem dessa pesquisa.

Porém, partiremos da hipótese que a maioria dos alunos talvez tenha dificuldades em reconhecer a ambigüidade de determinadas sentenças como também em definir o termo ambigüidade, pois não foram despertados para esse tipo de situação semântica. A partir do momento que forem alertados para o caráter ambíguo das línguas naturais, é provável que adquiram condições para percepção do duplo sentido dos enunciados que o possuem.

Para que possamos atingir os objetivos específicos desta pesquisa, como por exemplo, o fato dos alunos, ao final das tarefas realizadas, serem capazes de definir ambigüidade, reconhecê-la nas sentenças e em textos publicitários e também produzir textos com slogans ambíguos, desenvolveremos atividades direcionadas ao alcance dessas metas propostas.  

Inicialmente os educandos lerão o texto O sutiã e o gatão que aborda o universo publicitário. Responderão oralmente e por escrito questões sobre esse texto. Em seguida, farão uma folha de exercícios ainda sobre propagandas, na tentativa de se familiarizarem mais um pouco com os processos envolvidos nos comerciais. Em casa, selecionarão uma propaganda que mais lhes chamou atenção para apresentá-la à classe e analisar a relação do slogan com a imagem, a criatividade do comercial e explicar o motivo pelo qual a escolheu. Aos poucos, exploraremos o que venha a ser ambigüidade. No quadro-negro, o professor escreverá uma frase que seja ambígua, como por exemplo, ‘ O irmão de Cristiano pegou a blusa dele’ (de quem é a blusa: de Cristiano ou do irmão de Cristiano?), e a turma tentará explicar o duplo sentido dessa oração. Outras sentenças serão passadas no quadro para a identificação de suas ambigüidades: ‘Eu vi Pedro de óculos’ ( quem estava de óculos: Pedro ou a pessoa que o viu?), ‘Ele viu seu amigo enquanto descia o morro’ ( quem descia o morro: o amigo ou a pessoa que o viu?), ‘O juiz encontrou a filha chupando pirulito’ ( quem estava com o pirulito: o juiz ou a filha?), ‘O zelador pediu para o garoto não usar o elevador porque estava sujo de lama’ ( quem estava sujo de lama: o elevador ou o menino?). O professor solicitará também que a classe sugira outros exemplos.

Dando seqüência às atividades desenvolvidas, o professor mostrará aos educandos quatro propagandas com dupla interpretação e os mesmos terão de identificá-la. Os slogans são: ‘Minha mãe usou o dinheiro da minha educação para reformar a casa da praia. Mas eu vou ensinar pra ela não passar a perna no próprio filho’ ( ambigüidade: passar a perna), ‘Siena bate o novo Corsa 16V e não foi uma batida leve’ ( ambigüidade do vocábulo bater), ‘Só os suíços são... recheados’ ( duplo sentido de ‘suíços’ que pode fazer menção ao bolo que é suíço ou às pessoas que nasceram na Suíça), ‘Os recordes quebraram o homem’ (ambigüidade da palavra ‘recordes’).

Em grupo de três pessoas, os alunos lerão novamente as propagandas que trouxeram de casa para verificar se naquele texto ocorre ou não ambigüidade.

A seguir, a classe será dividida em duplas, pois essa etapa será desenvolvida no laboratório de informática do colégio e este possui vinte máquinas, isto é, não é um número suficiente para trabalhos individuais. Somente uma pessoa ficará sozinha porque a turma possui número ímpar de alunos e não é do nosso interesse que o trabalho seja realizado por um grupo de três pessoas. Os educandos criarão uma propaganda de caráter ambíguo, com os softwares Word ou Paint. Esses dois programas oferecidos já são conhecidos pela turma que os considera simples para manuseá-los.  Os alunos têm o hábito de fazer trabalhos no computador, estão familiarizados com esta máquina, porém, no caso de qualquer dúvida, poderão esclarecê-la com as monitoras do laboratório ou com a própria professora de língua portuguesa.Quando as propagandas estiverem prontas, os alunos apresentarão seus trabalhos aos colegas e explicarão a ambigüidade dos slogans.

Para encerrar as atividades, aplicaremos mais um questionário para a classe, com o objetivo de constatar quais alunos de fato compreenderam o que é ambigüidade e se já conseguem identificá-la quando aparece em certos enunciados.

 

5. Análise das propagandas

 

Praticamente todos os alunos corresponderam ao que lhes foi pedido: a criação de uma propaganda com um slogan ambíguo e a explicação do duplo sentido presente.

Obtivemos os seguintes slogans :

“Vá aos rodeios do nosso país. Você terá uma queda por eles.” Conforme essa dupla, a ambigüidade está na palavra ‘queda’ que pode ser cair do animal ou gostar do rodeio;

“Até a vaquinha da Carla vai querer”. Segundo os alunos, o duplo sentido está na palavra ‘vaquinha’: animal doméstico ou Carla é uma menina chata;

“Já pensou se sua galinha botasse ovos de ouro?”. Os educandos nos deram a seguinte explicação: os ovos são muito bons ou os ovos são realmente de ouro;

“Nossa Ferrari F50 veio para atropelar os concorrentes”. Para os componentes dessa dupla, a ambigüidade está na palavra ‘atropelar’: atropelar pessoas que são concorrentes ou eliminar a concorrência;

“Cortadores Saint... Saint não corta seu descanso”. Esses alunos identificaram o vocábulo ‘corta’ como o causador de duplo sentido: cortar a grama ou não acabar com o descanso de quem usa essa máquina;

“Creme rejuvenecedor Volta Tudo o único que faz você voltar ao seu passado”. Essa dupla reconheceu a ambigüidade na expressão ‘voltar ao passado’ que pode ser retornar à infância, ao tempo que já se foi ou suas rugas vão desaparecer, sua pele ficará melhor ;

“Ferrari, só ela tira nota 10 na classe”. Os criadores desse slogan viram mais de uma interpretação nas expressões: ‘nota 10’: nota de prova ou ser um carro bom e ainda em ‘classe’ que pode ser vista como sala de aula ou categoria, tipos de carro;

“Fique ligado nessa, pois o telefone não está para brincadeira”. Os alunos indicaram como ambíguo o termo ‘ligado’: estar ligado na tomada ou ficar atento. A intenção era fazer propaganda de uma companhia de telefone, mas faltou indicar que companhia é essa;

“Quando uma camionete for comprar vá correndo até a Ford, aquela que arrasa com a concorrência”. Para esses educandos, o duplo sentido está em ‘aquela’ que pode ser referir à loja da Ford ou à camionete. Eles construíram uma ambigüidade anafórica;

“Para quem não tem coração forte como ele... Odil, o remédio do coração e das grandes emoções.” Conforme essa dupla, temos mais de uma interpretação em ‘remédio do coração’ que pode ser remédio para o órgão chamado coração ou remédio do coração, remédio que todos gostam, pois é muito eficiente;

“Pare de fumar, cada vez que você compra uma carteira de cigarro estará comprando um prego a mais para o seu caixão”. Para esses alunos, a ambigüidade está nas palavras ‘prego a mais para o seu caixão’ que pode ser interpretado como morte ou prego para prender o caixão. Os mesmos alunos criaram mais uma publicidade com o seguinte slogan: “Venha! Participe! Vai ser o máximo! Festa do chopp. Você vai morrer de rir !!!” Nesse caso, eles confundiram hipérbole com ambigüidade (morrer de rir), porém não trabalhamos com a classe essa diferença; fato que justifica tal confusão. Faltou também fazer menção ao lugar da festa já que a propaganda quer divulgar uma festa;

 “Perfeita quando você vai brincar de Montanha Russa fora da cidade. Compre um Montanha Russa.” De acordo com as explicações desses educandos, a ambigüidade está expressa em ‘brincar de Montanha Russa’: brinquedo de um parque de diversões ou o carro chamado Montanha Russa que é bom para correr, passear;

“Corra igual a M. Schumacher Corra a 1000 por hora”. Segundo essa dupla, a ambigüidade pode ser notada em ” corra a 1000 por hora”: correr em uma alta velocidade ou correr igual ao Schumacher. Nesse caso, podemos considerar também ‘correr a 1000’ como uma hipérbole;

“Esse computador mostra tudo que você precisa”. Conforme essa dupla, a ambigüidade é ‘mostra’ que pode significar mostrar notícias ou programas de que precisamos ao ligar o computador ou possuir a feição desejada pelo seu comprador: máquina potente, com monitor, impressora, teclado, mouse e CPU de boa qualidade;

Os dois slogans a seguir foram feitos por duplas diferentes. Os mesmos contêm ambigüidade e os alunos souberam explicitá-la corretamente, porém eles se basearam em propagandas analisadas durante exercícios desenvolvidos durante a aula, ou seja, não foram muito autônomos no ato da criação do slogan, pois precisaram de um modelo para se basear. Talvez isso tenha ocorrido porque não entenderam muito bem o que era ambigüidade ou tiveram dificuldades em elaborar algo diferente do que já tinha sido visto na classe. Os slogans são: “Corra antes que acabe a onda dessa promoção!!!!!!!!” e “Os garotos vão te perseguir nos mercados, lojas e padarias!!! Chocolates Garoto!”. Conforme os alunos, o duplo sentido do primeiro comercial é ‘onda’que pode ser onda de mar ou muita promoção e, no segundo, a palavra ‘garotos’que pode se referir a meninos ou ao chocolate da marca Garoto. Os comerciais discutidos com a turma foram: “Vai começar uma nova onda de vendas. Chegou Kolynos Fresh.” e ” Ponha estes garotos para trabalhar em sua loja. É dinheiro certo.”, para se referir a marca de chocolate Garoto. É possível verificar, então, a semelhança entre os comerciais trabalhados no decorrer da aula e os criados pelas duplas já mencionadas;

Esse último slogan foi produzido pelo educando que ficou sozinho. Nesse caso, a propaganda não contém ambigüidade e não ficou claro que tipo de publicidade o aluno quis fazer: “As pessoas tem que ta preparado para a faculdade por que sem ela não se tem enprego para ter uma vida boa tem que ter um enprego bom.” Observamos aí casos de vagueza, mas não de ambigüidade.

Na criação das propagandas com slogans ambíguos, a maioria não apresentou dificuldades e foi independente no momento de realizá-las. Apenas três duplas solicitaram ajuda ao professor, duas duplas precisaram se basear nas propagandas mostradas no decorrer das aulas e um aluno não produziu o que foi solicitado. Foi possível observar também que houve uma participação ativa dos educandos durante as diversas atividades propostas e os mesmos demonstraram interesse em desenvolvê-las.

 

6. Considerações finais

 

 Conforme as hipóteses desta pesquisa, muitos alunos poderiam não reconhecer a ambigüidade de algumas sentenças, pois ainda não tinham sido despertados para esse tipo de situação semântica. Porém, após uma tomada de consciência da possibilidade de duplo sentido dos enunciados, passariam a reconhecê-lo como também poderiam ser capazes de produzir sentenças ambíguas propositalmente.

No decorrer desta pesquisa, essas duas hipóteses foram verificadas. De fato, quase todos os alunos, depois da consciência da ambigüidade das línguas naturais, produziram propagandas com slogans ambíguos, souberam explicar o duplo sentido encontrado nesses slogans e também nas outras frases que foram passadas à classe, no quadro.

De acordo com o segundo questionário aplicado no encerramento das atividades , trinta educandos responderam que sabiam o que era ambigüidade e a definiram corretamente; isso corresponde a 91%. Apenas 9% não sabia o que era ambigüidade, resultado bastante contrastante em relação ao do primeiro questionário que foi anterior às atividades especificadas na metodologia desta pesquisa (comparar com os gráficos expostos na Amostragem). Após todas as atividades sobre ambigüidade, vinte e oito alunos, isto é, 85% identificou corretamente a ambigüidade da frase do questionário: “ O ladrão entrou na casa do prefeito e tirou toda a sua roupa” ( de quem é a roupa tirada: do ladrão ou do prefeito?). Somente quatro alunos, ou seja, 12% não conseguiu perceber a ambigüidade dessa frase e apenas um (3%) não tentou identificar o duplo sentido aí presente. Mais uma vez, dados bem contrastantes se comparados aos anteriores. Observe os gráficos abaixo:

Espera-se, portanto, ter ampliado os conhecimentos lingüísticos destes educandos, como o proposto em uma das metas desta pesquisa e já que a mesma tinha como base textos publicitários, espera-se ,também, ter alertado os alunos sobre certas características da linguagem dos comerciais, como a exploração proposital da ambigüidade.

 Anexo 

Propagandas produzidas pelos alunos 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências bibliográficas

 

BORBA, Francisco da Silva. 1991.Introdução aos Estudos Lingüísticos. Campinas: Pontes.

DUCROT, Oswald. 1972. Princípios de Semântica Lingüística(Dizer e não Dizer). São Paulo: Cultrix.

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________. e GERALDI, João Wanderley. 1987. Semântica. São Paulo, Ática.

KEMPSON, R. 1980. Teoria Semântica. Rio de Janeiro: Zahar.

LYONS, John. 1987. Linguagem e Lingüística: uma introdução. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

MOURA, Heronides M.M. 1999. Significação e Contexto: uma introdução a questões de semântica e pragmática. Florianópolis: Insular.

________. 1996. O Buraco Negro do Valor de Verdade: a semântica dos predicados vagos. Tese de Doutorado. UNICAMP.

OLIVEIRA, Roberta Pires de. 2000. Semântica formal: uma introdução. Florianópolis, (Pré-publicado).

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